LUTAR AO MÁXIMO PARA EVITAR O REBAIXAMENTO DOS ACORDOS COLETIVOS

Obviamente cada categoria, juntamente com seu respectivo sindicato, têm autonomia para tomar decisões acerca da negociação coletiva. No entanto, a equipe do DIEESE tem orientado os dirigentes à resistirem ao máximo a
propostas de acordo com perdas, sejam salariais ou de outra natureza. As razões para defendermos tal posição são várias:
 
1º) Reajuste salarial não deveria nem ser objeto de discussão nas mesas. Se não houver correção monetária nos salários, o trabalhador vai perdendo poder aquisitivo a cada negociação. A reposição de perdas deveria ser um
pressuposto da mesa de negociação, especialmente com a inflação geral nos patamares em que se encontra, em torno dos 3%;
 
2º) Além disso, devemos observar as especificidades da inflação. Os índices gerais estão em torno de 3%, mas os alimentos têm aumentado em ritmo bem superior à média inflacionária. Segundo o DIEESE, na pesquisa de Cesta Básica de Agosto, 8 das 17 capitais pesquisadas, apresentaram variações anuais acima de 15%. Em Florianópolis uma CB está custando R$ 530,42 e
aumentou 14,26% em 12 meses. Esta é uma cesta para uma pessoa adulta suprir suas necessidades;
 
3º) Quanto mais baixo o salário, maior o peso relativo dos alimentos sobre o orçamento. Uma família que tenha renda domiciliar de R$ 1.500,00, que tenha apenas um membro da família empregado, provavelmente gasta a totalidade dos recursos com comida, limpeza e higiene. É o que acontece com uma
parcela muito expressiva dos trabalhadores brasileiros, especialmente neste momento;
 
4º) Além disso, inflação de alimentos é um mecanismo adicional de
transferência rápida de renda dos mais pobres para os mais ricos, que assim enriquecem ainda mais com a fome e a piora de vida da população mais pobre. E a fome está aumentando rapidamente. Segundo o IBGE, na população de 207,1 milhões de habitantes em 2018, 122,2 milhões eram moradores em domicílios com segurança alimentar, enquanto 84,9 milhões viviam com algum
2 grau de insegurança alimentar. Ou seja, mais de 41% dos brasileiros, em 2018, penavam algum grau de insegurança alimentar (hoje, claro, a situação está pior);
 
5º) O salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE, em agosto, foi de R$4.536,12. Este é o mínimo necessário para uma família de 4 pessoas, dois adultos e duas crianças. Equivale atualmente a 4,3 salários mínimos. Este indicador, bastante simples, revela como os salários médios no Brasil são baixos;
 
6º) Em função dos salários serem extremamente baixos, e a cesta alimentar para uma pessoa custar acima de R$ 500,00, boa parte das negociações, na prática, são negociações “por comida”. Ou seja, o trabalhador negocia o direito a colocar comida na mesa, e alimentar a sua família, no próximo ano. Este
fenômeno é agravado pelo fato de que, tirando um segmento pequeno da classe trabalhadora brasileira, os acordos são extremamente pobres, não dispõem de muito benefícios e outras vantagens;
 
7º) Nos últimos anos tem aumentado a exploração dos trabalhadores, através da destruição de direitos, dos benefícios existentes, ou da redução dramática do número de trabalhadores em cada local de trabalho, obrigando os que permanecem a acelerar o ritmo de trabalho;
 
8º) Toda a negociação salarial é feita com base em índices que medem a inflação no varejo. O problema é que, no atacado, temos o dobro do acumulado dos índices de varejo. Enquanto o INPC totalizou menos de 3%, entre outubro de 2019 e agosto, o IGP-M (calculado pela Fundação Getúlio Vargas) entre setembro/19 a agosto/20 ficou em 13,02% (334% acima). Um IGP-M acima de
13% em 12 meses, significa que os preços no Atacado (que compõem 60% do referido índice) estão aumentando num ritmo acima dos preços ao consumidor.
Mais cedo ou mais tarde, tal aumento será repassado ao varejo, de forma mais ou menos veloz, a depender de outras variáveis, como nível de retomada do crescimento, nível de emprego, etc. Por isso é importante o aumento real. No primeiro semestre de 2021, a inflação anual poderá subir bastante, o que levará a queda inevitável e rápida do poder de compra.
 
Fonte: José Álvaro de Lima Cardos

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